domingo, 22 de dezembro de 2013

Nove horas



O sol das nove horas da manhã ilumina o quarto deixando tudo num tom de âmbar. A brisa sacode as cortinas que impedem de voar as folhas que estão espalhadas no criado-mudo. Foi uma longa noite, mas não daquelas em que o espírito cansa de pensar ou calcular mirabolâncias. Não.  Foi simplesmente uma noite a mais. Daquelas em que tudo se mistura, se revela, se apaga e desaparece como se a vida fosse um capítulo confuso e desconexo de um livro mal escrito, mas nem isso importa. Já amanheceu.

Desta vez não adormeci. Ainda estou sentado frente à escrivaninha, com os pés em cima desta. Ao fundo toca uma música que não consigo identificar, parece jazz ou será blues? Nunca sei diferenciar direito. Sinto tuas mãos correrem lentas e delicadas pelos meus ombros em direção a meu peito: início de um abraço ou de qualquer coisa a mais... É um bom começo para o próximo capítulo, melhor anotar logo antes que a memória me traia.

Vejo os lençóis de minha cama. Estão intactos. Antes não estivessem. Estão assim porque o tempo é outro o fuso horário também. Quartos de hotel são irritantemente impessoais e me irritam profundamente porque não me lembram nada em especial, só que não tenho nada pelo que esperar a não ser o telefonema da chefia designando as próximas coordenadas. Enquanto isso ainda espero.

Olho de novo para a janela e sinto fome. Ponho meias, calço sapatos, calças e uma camiseta qualquer. Desço as escadas e conforme o vento que se forma pelo simples movimento que exerço bate mais e mais forte contra meu rosto.

“Quer um milho verde?”

É a pergunta que sempre ouço e que sempre tenho certa satisfação em responder: “Não”. Eu nunca fui de muitos vegetais mesmo, mas também gostava de ver a cara de “desisto” dela toda vez que ouvia eu dizer esse não. A expressão dela contra a luz do sol do verão é inspiradora. 

Ela sempre perguntava outra vez...

Ao chegar nos degraus finais da escada, vejo as mesas com o café servido. A variedade é boa, mas hoje acordei (pra vida) com vontade de comer mamão e mais nada. Ok, talvez um pouco de açúcar em cima, para melhorar o paladar,  mesmo porque não precisamos ser tão rigorosos nesta coisa toda de frutas!
Entre uma colherada e outra sinto tocar o meu celular. São eles.

“Como vai o nosso homem mais eficiente?”

“Aproveitando a oportunidade desta vista aqui. Diga...”

“Queremos isso aí entregue até amanhã, ok?”

“Entendido, senhor.”

De volta ao quarto, começo a organizar meus instrumentos de trabalho. Se eles falassem teriam muita história para contar. Um a um, os posiciono sobre a mesa me certificando de que nenhum deles seja esquecido. São parte importante do meu trabalho, as vezes penso que têm importância maior do que eu mesmo.

Desliza pelas cortinas uma brisa leve com cheiro de verão. Junto a ela um perfume que me lembra de muita coisa. Um perfume adocicado, que me lembra o cheiro dela e, não a deixe ouvir, de todas as outras que passaram e que por um motivo ou outro não puderam ou não quiseram ficar. Aquilo me embriagou por alguns instantes.

Era hora de voltar a escrever. Não daria para deixar o momento passar. Às vezes me sinto como um surfista. Há de se esperar e esperar até chegar a onda perfeita e nela conseguir mostrar o melhor de sua habilidade.


Usar “Era uma vez” é cliché demais, talvez se usar “Um dia me contaram que...” seria melhor..

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