O dedilhar do violão do Zé rompe o silêncio desse lugar e
até entretém quem está aqui por jogo, diversão ou bebedeira.
Ele não é pago por isso, nem pretende, pois acha que a
música não deve virar moeda de troca. Ela é livre, feito os pássaros que vêm pousar
sobre os barracos do morro.
Livre como todos que vivem aqui querem ser. Livre que nem a
Vanessa, a cabrocha que sambou em cima do coração dele, e que se livrou bonito,
mas isso é outra história.
O sonho do Zé era conseguir fazer um samba de sucesso. Um samba
que ficasse na memória das pessoas pra mesmo depois que ele já tivesse passado
dessa pra uma melhor. Com uma letra fácil, mas bela e uma melodia que ficasse
na cabeça e no coração de todos.
Ele sonhava em ser o próximo Cartola.
Não tinha muitas ambições, além disso. Carros, casas, luxo,
nada disso. Queria somente a fama e o reconhecimento.
Em um final de tarde, voltando para o barraco onde morava
com a mãe, já idosa, Zé deu de cara com um homem bem vestido e que tinha um ar
de importância quase exacerbada. Esse homem assim que o viu lhe estendeu a mão.
- E você... É o homem que tenta fazer o samba da sua vida,
não é?
Zé, mesmo sem ter frequentado a escola durante boa parte da
vida, viu que aquele homem tinha algo por trás daquele sorriso simpático e do
paletó de fino tecido.
- É, meu senhor, eu busco fazer música boa. Só isso.
- Pois então hoje é o nosso dia de sorte. Eu estou aqui para
te ajudar, meu rapaz.]
- Como é que o senhor vai poder me ajudar. Que eu saiba um
samba só se pode fazer com duas coisas: Com muito amor ou com muita dor.
- Vou te ajudar te dando essa caneta, Zé. Ela vai te dar
tudo o que você precisa pra conseguir o que quer.
Só o que você precisa fazer é
escrever com ela, sempre. E vai ver como essa tua inspiração não depende só
disso.
Por via das dúvidas, Zé começou a usar a tal caneta, que
não era diferente de outras canetas. Tinta preta, cano transparente, tampa.
Nada demais. Toda vez que uma ideia vinha na sua cabeça, ele até pensava em
pegar qualquer lápis que estava ali à mão, mas só a caneta do desconhecido
fazia as suas ideias fluírem.
E então, numa noite quente em que os grilos faziam um coral
lá no Morro da Solidão, eis que o compositor ganhou na insistência. Saíram
assim, feito água clara de beber, esses versos:
A batida do meu tantã/Faz o povo dançar
Ninguém pensa no amanhã/ Quando ouve o meu canto ecoar
Lalalaiá/Lalaiá/Laiááá
Foi a maior alegria da vida dele. Pois sentiu que estava
diante dos olhos dele, naquela folha de papel de pão, a música que iria abrir
as portas para o seu sucesso, para o seu reconhecimento.
E o Zé, realmente foi reconhecido. Gravou seu samba, fez
shows por todo lado e até mesmo a Vanessa, arrependida, comprou o seu CD e foi
pra primeira fila aos gritos de “Meu Poeta!”, ver se conseguia o amor dele de
volta.
Assim que a tinta da caneta acabou, o Zé não conseguiu fazer
outro samba tão bom. O homem nunca mais deu as caras pelo morro. Atordoado pelo
fim do seu sucesso, Zé não aguentou e virou notícia no fundo da Lagoa do Mel.
Ainda tinha dinheiro, mas queria o calor das luzes do palco.
Mas o seu samba ficou ainda, no canto do povo e das rodas de
samba.
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